Blogue de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes de Lisboa e arredores
Sexta-feira, 8 de Agosto de 2014
AS CORES REPUBLICANAS NO BARRETE DO CAMPINO RIBATEJANO

O campino do Ribatejo, tal como atualmente o conhecemos, altivo na sua montada, com o seu pampilho, apresenta-se invariavelmente com o seu colete encarnado, faixa vermelha à cintura, calça azul e meias brancas até ao joelho, jaqueta e sapato de prateleira com esporas. Ao invés de outros trabalhadores rurais da mesma região, usa barrete verde com orla a vermelho, sugerindo as cores da atual bandeira nacional.

!cid_8E15D7D0C7A649B2828A15C1ACF572F1@utilizador

O barrete é, desde tempos muito recuados usual em diversas regiões do nosso país, quer no meio rural como ainda entre as comunidades de pescadores. No Minho, apesar da indústria de chapelaria que se desenvolveu em Braga nos meados do século XIX, a qual levou à difusão em toda aquela do característico chapéu braguês, o barrete continuava a ser utilizado nas tarefas diárias da lavoura.

Originariamente, todos os barretes eram pretos ou cinzento-escuro, independentemente do grupo social ou a região do país em que eram utilizados. Ainda hoje os podemos encontrar com relativa facilidade entre os pescadores da Nazaré e da Póvoa do Varzim ou até na região saloia. Porém, apesar de se pretender preservar aquilo que foram os usos e costumes de uma determinada época, geralmente dos finais do século XIX e começos do século XX, também o traje tradicional tem sido permeável às modas e a outros interesses que o levam a registar modificações que, não raras as vezes chegam até nós como o que existe de mais genuíno.

Seria extensa a lista de exemplos que poderíamos enumerar para descrever as alterações que ao longo dos tempos se tem registado no traje tradicional, para já não falarmos de outros aspetos relacionados com o folclore como as coreografias, os instrumentos utilizados e os próprios cantares. Bastará, apenas, referir o tamanho das saias que outrora se usavam comparados com o que por vezes é exibido atualmente, as formas estilizadas e os tecidos. Muitas dessas alterações não estão apenas relacionadas com as influências exercidas pela moda mas ainda com a sua utilização para fins de propaganda turística e até política, como sucedeu em grande medida durante o período do Estado Novo.

Passa mais de um século desde que foi instaurado em Portugal o regime republicano. E, como é sabido, o Ribatejo constituía uma das regiões de maior implantação política dos republicanos da altura. De resto, foi um ribatejano de seu nome José Relvas, quem hasteou a bandeira do novo regime nos Paços do Concelho, em Lisboa. Na verdade, a bandeira hasteada pertencia a um pequeno grupo político, o Centro Democrático Federal, pois a bandeira tal como a conhecemos só viria a ser concebida e aprovada pela Assembleia Nacional Constituinte no ano seguinte.

Inspirados pelo famoso quadro “A Liberdade guiando o Povo” de Eugène Delacroix, os republicanos criaram uma figura alegórica para representar a República, um tanto à semelhança do que fizeram os franceses ao conceberem a sua Marianne. O modelo então escolhido foi uma jovem alentejana de Arraiolos, de seu nome Irene Pulga. E, tal como os franceses fizeram com a Mariana, colocaram-lhe sobre a cabeça um barrete frígio.

O barrete frígio é assim designado por ter sido primitivamente usado pelos habitantes da Frígia que constituía uma região da Ásia Menor, sensivelmente onde atualmente se encontra a Turquia. Os republicanos franceses adotaram-no, sob a cor vermelha, como símbolo de liberdade. Aliás, da mesma forma que, nos finais do século XIX, foram os caçadores alpinos franceses os primeiros a adotar a boina basca, alterando-lhe a cor para azul-escuro, tendo passado a constituir um acessório dos uniformes de inúmeras forças militares sob as mais diversas cores. De forma algo idêntica, também os republicanos portugueses viram certamente no barrete do campino ribatejano uma espécie de barrete frígio, genuinamente português, podendo ser-lhe introduzidas as cores da República.

Com o decorrer do tempo e a divulgação do folclore, mormente ao tempo do Estado Novo, a ideia do barrete verde viria a enraizar-se nos costumes ribatejanos e a tornar-se uma peça considerada genuína do traje do campino.

Carlos Gomes / http://www.folclore-online.com/

Foto: Susana Custódio / http://susanacustodio.blogspot.pt/



publicado por Carlos Gomes às 00:00
link do post | favorito

mais sobre mim
pesquisar
 
Novembro 2019
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
13
14

17
18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30


posts recentes

CASA DO CONCELHO DE TOMAR...

GOESES DANÇAM NA CASA DAS...

PAN TOMA POSIÇÃO EM RELAÇ...

PAN QUER DESPENALIZAR EUT...

PAN QUER CORREDORES E ABR...

LUÍS ESTEVES, PRESIDENTE ...

PAN PEDE REVOGAÇÃO DA AUT...

PAN QUER AUDIÇÕES URGENTE...

PAN PEDE AUDIÇÃO SOBRE O ...

PAN AVANÇA COM AS PRIMEIR...

PAN QUESTIONA O GOVERNO S...

METRO LEVA CINEMA AO CAIS...

BANDAS FILARMÓNICAS DESFI...

TOMARENSES CONFRATERNIZAM...

METROPOLITANO DE LISBOA A...

PROGRAMA DE GOVERNO ACOLH...

CASA DO CONCELHO DE TOMAR...

PAN QUER PORTUGAL A SEGUI...

METRO DE LISBOA ASSINALA ...

METRO CELEBRA DIA MUNDIAL...

O QUE DISSE ANDRÉ SILVA, ...

METRO CELEBRA DIA MUNDIAL...

METRO DE LISBOA APOSTA NA...

METROPOLITANO DE LISBOA R...

ESTUDO DA INTRUM REVELA Q...

JORNADAS EUROPEIAS DO PAT...

METRO DE LISBOA ADERE À D...

OUTLOOK DO RATING DO METR...

TOMARENSES EM LISBOA CONF...

FEDERAÇÃO DO FOLCLORE POR...

CASA DO CONCELHO DE TOMAR...

ALFRAGIDE REALIZA FEIRA S...

ALDEIAS DE CRIANÇAS SOS C...

METRO REALIZA CONCURSO DE...

FEDERAÇÃO DO FOLCLORE POR...

METRO DE LISBOA REFORÇA P...

MOVIMENTOS CÍVICOS CONTRA...

METROPOLITANO DE LISBOA V...

METRO DE LISBOA ASSINALA ...

CENTRO NACIONAL DE CULTUR...

PAN APRESENTA PROGRAMA EL...

METRO DE LISBOA COMEMORA ...

ARGANILENSES EM LISBOA RE...

PAN INSTA GOVERNO A INTER...

PAN CONTESTA ENCONTRO EM ...

PAN ENTREGA LISTA DE CAND...

ESTAÇÃO BAIXA-CHIADO CELE...

COMUNIDADE ROMENA DA REGI...

INVESTIGAÇÃO DA UNIVERSID...

ALFRAGIDE REALIZA FESTIVA...

arquivos

Novembro 2019

Outubro 2019

Setembro 2019

Agosto 2019

Julho 2019

Junho 2019

Maio 2019

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Agosto 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

tags

todas as tags

links
Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds