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Sexta-feira, 12 de Dezembro de 2014
FEDERAÇÃO PORTUGUESA DAS CONFRARIAS GASTRONÓMICAS DESEJA-LHE BOAS FESTAS

Imagem do Presépio de Machado de Castro

Quando começa e acaba o Natal? Quando o doce e o salgado se misturam no nosso coração e nos transportam para as recordações doces do que foi o Natal. 

O Natal está à porta e este ano quisemos lembrar-lhe que, para além da norma padronizada pelos meios de comunicação social, existem várias formas de viver a mais bela quadra do Ano. O Natal é para todos e de todos, vive-se na mesa do pobre, na mesa do remediado e na mesa do rico, mas a todos sabe da mesma maneira. São como as lágrimas que se choram na Noite de Natal, há quem chore e as lágrimas sejam doces, pois, doce é a presença de quem nos acompanha nessa noite. E há quem chore e as lágrimas sejam mais salgadas que a água do mar, pois, sente-se a ausência de quem não está ou já partiu. Mas essa é também a beleza do Natal, sentirmos mais intensamente os sentimentos que nos unem aos outros.

Não se pode medir a felicidade de cada um, já que isso faria supor que as expectativas são iguais, mas podemos dizer que na Noite de Natal não há quem não sinta o doce e o salgado misturarem-se na boca e no coração dando origem à descoberta de novas atitudes perante a vida. Chegamos nesta altura ao fecho do ano, ao início de um novo ciclo e o Natal transporta-nos para essas contas entre o deve e o haver entre nós e os outros, entre nós e a vida.

Poderemos pensar quão diferentes podem ser as “noites de Natal” e como a família pode não ser a de sangue, mas a que nos dá carinho e alento nas horas difíceis e solitárias. Apreciem o doce e o salgado de uma noite que é de todos e que por todos é sentida com o presépio, o Menino Jesus, a árvore de Natal, o frio de Inverno em noite de lua cheia que nos alumia nas viagens entre famílias, a emoção, a expectativa, a aconchegante lareira, a cozinha, pela manhã seguinte, enfim, o Natal começa e acaba quando? Quando o doce e o salgado se misturam no nosso coração e nos transportam para recordações doces do que foi o Natal.  

Com um excerto belíssimo do “O Presépio” de D. João da Câmara, que nos mostra que por vezes perdemos gratuitamente a beleza do momento, desejo a todos a oportunidade de viver o Natal naquilo que ele tem de maior, o encontro com o outro, o encontro com a vida!

“(…) Lembrou-se de fazer muito misteriosamente um presépio. O segredo em que havia de trabalhar mais o animava na tarefa. (…) Assim modelou o menino Jesus, que deitou num berço de caixas de fósforos, Nossa Senhora de mãos postas, São José de grandes barbas, os três Reis Magos a cavalo, e os pastores, um a tocar gaita-de-foles, outro com um cordeirinho às costas, e uma mulher com uma bilha. Não se pareciam lá muito; mas ele deu provas de que sabia puxar pela imaginação. (…) Aos anjos fez asas com as penas de uma galinha que depenou para um jantar que não comeu. Moeu vidro para fingir as águas do rio, e no papel de embrulho recortou um moinho que só havia de armar à última hora. (…) O que mais o encantava era o menino Jesus, com a cabeça do tamanho de um grão de milho, com buraquinhos a fingirem olhos, ouvidos, nariz e boca. Tinha mãos com cinco dedos riscados a canivete e dois pezinhos que ele achava um encanto. Era a véspera do Natal. Às dez e meia, o patrão mandou-o deitar e saiu.

Que alegria estar só! (…) Não lhe deixavam luz; mas que importava? Às escuras armaria o presépio. E logo principiou. Enrolou o moinho, pôs-lhe as velas; esticou o papel azul que fingia o céu e pregou nele com um alfinete a meia Lua; espalhou o vidro moído, num S em volta das palhas; dispôs as figurinhas, suspendeu os anjos. Depois fez uma carreira de fósforos de cera, que todos se haviam de acender ao mesmo tempo, num deslumbramento, quando desse meia-noite. (…) Batia-lhe o coração, que lhe parecia que deviam de ser milagrosas as figurinhas, que delas lhe viria algum bem, consolação de sua vida triste.

Meia noite! Acendeu os fósforos e ficou embasbacado! (…) Nunca assim vira coisa tão perfeita. Os anjos voavam deveras, os cavalos dos reis galopavam, o rio corria, as velas giravam no moinho e os pontinhos do Menino Jesus sorriam-lhe no rosto a São José e a Nossa Senhora!

Tão enlevado cantava, que nem ouviu o patrão abrir a porta, entrar na loja, chegar ao desvão.

Acordou-o do êxtase um pontapé.

- Isso… Agora larga-me fogo à escada!... Varre-me já esse lixo!

E ele, a chorar, levantou-se, foi buscar a vassoura. O bruto continuava aos pontapés.

- Vá?... Vá! Mas quando se deitou, encontrou na enxarga uma figurinha. Apalpou-a, conheceu-a logo: era a do Menino Jesus. Beijou-a muito. Pior vida levara do que ele…

Sentiu de repente um dó muito grande do patrão, que não vira nada, nem que era tão bonito aquele Menino, com um olhar tão meigo nos seus olhinhos picados.”

Um Bom e Santo Natal

Olga Cavaleiro


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publicado por Carlos Gomes às 18:08
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