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Terça-feira, 18 de Dezembro de 2018
IGREJA MATRIZ DE LOURES: A QUEM CABE RESTAURAR UM MONUMENTO NACIONAL?

Trabalhos de restauro necessitam de orientação técnica

A Igreja Matriz de Loures tem vindo nos últimos cinco anos a ser alvo de uma intervenção destinada a preservar e recuperar o seu antigo esplendor, numa iniciativa levada a cabo pelos paroquianos que não se conformaram com o estado em que o monumento se encontrava.

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A sinalética ao lado da imagem da santa não parece muito adequada e até desnecessária porque não existe no local qualquer extintor como se pode ver na foto... de resto, os extintores devem situar-se junto à porta de saída! Do lado esquerdo, a parede foi rasgada e a pintura marmórea destruída para enterrar o cabo eléctrico do sistema de alarme.

Foto: Teotónio Gonçalves

 

Porém, a Igreja Matriz Paroquial de Santa Maria de Loures encontra-se classificada como Monumento Nacional por Decreto de 16 de Junho de 1910, publicado no Diário do Governo nº. 136, de 23 de Junho de 1910. Insere-se na Zona Especial de Protecção estabelecida por Portaria de 26 de Agosto de 1958, publicada em Diário do Governo, II Série, de 12 de Setembro de 1958. Caberia, pois, ao Estado proceder à sua recuperação, conservação e restauro, sob a orientação de técnicos especializados nesta área.

Segundo o engº Raul Santos, um dos paroquianos mais empenhados neste projecto, “O restauro neste momento, foi nas 3 abobadas do tecto, madeira e pinturas. Depois na pintura dos pilares, janelões e portas exteriores. E o último elemento foi o arco triunfal e as imagens que tambem foram restauradas.

Esta Santa Maria de Loures sofreu intervenção nas roupas. E agora estamos preparados para o sub-coro, julgo que no início do proximo ano. Portanto, zonas de maior vulto a intervencionar, pelo peso em €, fica na Capela Mor, a talha dourada e o tecto. Depois todas as paredes, muita área.

Este restauro vem de há 5 anos e embora a Matriz seja monumento nacional, logo do Estado português, nao colocam aqui um €, e ainda temos de pagar o iva legal.

E, quanto as empresas, são as que estao autorizadas pelo Estado a fazer este tipo de trabalhos. Temos pano para mangas...poderá ser que nos saia a lotaria de natal.”

A Igreja Matriz Paroquial de Santa Maria de Loures foi edificada em meados do século XV no local onde outrora existiu uma igreja medieval que terá pertencido à Ordem dos Templários e da qual ainda restam algumas lápides sepulcrais esculpidas com a Cruz do Templo e que actualmente se encontram amontoadas a um canto junto à entrada principal.

Dispõe de três naves que assentam em colunas de ordem toscana que, separadas grande distância, assentam numa base circular, com fuste liso e encimado pelo capitel simples.

Ao longo dos tempos foi sujeita a várias intervenções, tendo inclusive sido votada ao abandono na sequência do terramoto de 1755. 

A pia baptismal encontra-se junto ao Evangelho, portanto fora do baptistério onde deveria estar. Mais recentemente, o gradeamento que separa o presbitério das naves foi retirado e as pedras que o seguravam arrancadas e encostadas às colunas. E, do caixotão da nave central continuam pendentes umas velhas ventoínhas sem uso. E muito mais se poderia dizer a este respeito…

Capturar

Para uma melhor compreensão, transcreve-se a respectiva Nota Histórico-Artística da autoria da Drª Catarina Oliveira:

“Depois da Reconquista de Lisboa, D. Afonso Henriques distribuiu pelos Templários que o acompanhavam algumas terras nas regiões de Sintra e Loures, pelo que a fundação primitiva da igreja matriz de Loures é atribuída à Ordem dos Cavaleiros do Templo. Desta igreja românica nada resta, excepto algumas lápides sepulcrais com a Cruz do Templo gravada, que actualmente estão colocadas no chão da matriz. 

No entanto, a partir do século XVI a igreja viria a sofrer transformações profundas, derivadas de diversas campanhas de obras realizadas ao longo dos séculos XVI e XVII. Em meados do século XVI o templo foi reedificado, alterando-se a sua estrutura e possivelmente as dimensões da planta, passando a apresentar uma estrutura maneirista de tipologia chã

O exterior, de modelo simples e despojado, indicia alguma erudição no projecto. Os portais principal e lateral são inspirados na tratadística clássica serliana. A torre sineira, adossada à fachada lateral foi edificada em 1620. 

O espaço da capela-mor destaca-se no exterior, formando uma área rectangular de menores dimensões em relação ao corpo principal. Por trás da capela-mor foi edificada a casa da Irmandade do Santíssimo Sacramento. 

No espaço interior conservam-se muitas das obras da campanha maneirista, de grande erudição e qualidade. A planimetria divide-se em três naves, cujos tramos são marcados por arcos de volta perfeita assentes em colunas toscanas. As colunas e o intradoso dos arcos são decorados por pintura de brutesco, cuja execução data de 1670. O espaço é coberto por tectos de madeira pintados, com a imagem de Nossa Senhora da Assunção sobre a nave principal. 

Os retábulos dos altares laterais apresentam um conjunto de pintura maneirista, cujo programa pictórico se integra no espírito contra-reformista do final do século XVI. Do lado da Epístola foi colocado o retábulo dedicado a Nossa Senhora da Conceição, executado por Diogo Teixeira cerca de 1575, e do lado do Evangelho situa-se o retábulo de Nossa Senhora da Graça, pintado por Simão Rodrigues entre 1595 e 1600.

Do século XVII subsistem duas tábuas, colocadas nas naves laterais, uma de André Reinoso, identificada como A comunhão da Virgem , outra de Bento Coelho da Silveira, São Miguel e as Almas .

A capela-mor, decorada com lambril de mármores embrechados, possui retábulo-mor executado em 1711 pelo escultor Claude Laprade e pelo mestre Bento da Fonseca de Azevedo. Este retábulo introduziu no programa decorativo da matriz de Loures o barroco ao romano, representando uma novidade na construção de retábulos em Portugal.

Até ao final do século XVIII foram executadas mais algumas obras, sobretudo de colocação de talha e mosaicos, e no ano de 1777 a capela de Nossa Senhora do Socorro, edificada em 1594 na nave do lado do Evangelho, foi desmanchada para ser aberta a porta lateral.

No início do século XX, com o advento da República, a igreja foi fechada ao culto, e assim se manteve até 1931. Nas décadas que se seguiram, depois de reaberta, a igreja foi objecto de diversas obras de restauro, conservação e consolidação das estruturas.

Catarina Oliveira

GIF/ IPPAR/ 2005

Fotos: Eduardo Portugal / Arquivo Municipal de Lisboa (1952)

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publicado por Carlos Gomes às 23:06
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