Blogue de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes de Lisboa e arredores
Quinta-feira, 22 de Maio de 2014
OS MINHOTOS EM LISBOA E AS MARCHAS POPULARES DOS BAIRROS ALFACINHAS

BLOGUE DE LISBOA recupera entrevista concedida pelo poeta Silva Nunes ao jornal “O Povo do Lima”, em 1992.

O poeta Silva Nunes foi uma das figuras incontornáveis da cultura alfacinha e das marchas populares. Durante décadas a fio, escreveu as letras para a maior parte das marchas dos bairros lisboetas. Parafraseando outro poeta, Silva Nunes é o poeta que canta Lisboa sempre que Lisboa canta.

Em 1992, concedeu-nos uma entrevista que então publicámos no extinto jornal “O Povo do Lima”, na qual abordámos aspetos relacionados com a presença da comunidade minhota em Lisboa e as marchas populares dos bairros lisboetas. Cinco anos decorridos, graças á sua intervenção, a marcha de Campo de Ourique desfilava na avenida da Liberdade, envergando trajes do Minho e entoando as letras do poeta Silva Nunes, com composição musical de Mário dos Santos Gualdino.

O BLOGUE DE LISBOA recupera a entrevista então feita ao poeta Silva Nunes.

- A seu ver, qual o bairro de Lisboa onde se registam de forma mais acentuada os efeitos desta migração? Porquê?

- Tal como acontece com o algarvio, o beirão e o alentejano, o minhoto nunca formou, em lisboa, uma verdadeira comunidade bairrista, isto é, no estilo do podo ovarino que se radicou na Madragoa. No entanto, por experiência própria, sabemos que o minhoto nunca deixou adormecer em si o orgulho que o prende à beleza inesquecível do mais lindo recanto de Portugal, que é a sua província: os exemplos são muitos. Enumerá-los, para quê?... Basta conviver durante alguns dias, para ver como o seu sentimento se funde na alegria de um bairrismo salutar.

- Qual a marcha de Lisboa que mais representa os tipos característicos do carvoeiro, do taberneiro e outros que tenham a ver com as gentes do Minho?

- A marcha de Alcântara apresentou, por mais de uma vez, o tema de descarregadores de sal e carvão, pelo facto das “fragatas” e dos “varinos”, de Alcochete, procederem às suas descargas na “Doca do Pinho”, ali, a dois passos. Entre o pessoal descarregador viam-se mulheres naturais do Minho que, além da descarga do carvão, também vendiam peixe pela cidade, como as chamadas varinas da Madragoa ou de Alfama.

A propósito, apetece-nos dizer que os minhotos, tal como qualquer alfacinha, habituaram-se a gostar dos bairros típicos da Capital onde vivem, sem esquecer as suas origens. Por isso, em noite de Santo António, cantam nos bailaricos, queimam alcachofras e percorrem a cidade de cravo vermelho e vaso de manjerico.

Nos anos 60, encontrámos uma linda jovem, de Santa Cruz do Lima, que erguendo o arco da frente, cantava com alegria bairrista, a canção que fora êxito na voz de Beatriz Costa:

            “A Marcha da Mouraria

            Tem o seu quê de bairrista.

            Certos laivos de alegria,

            É a mais boémia,

            É a mais fadista.”

- Pensa que, à semelhança do que sucede com a Madragoa, em relação á comunidade ovarense que ali reside, existe a possibilidade de “influenciar” positivamente a marcha de um dos bairros de Lisboa com as figuras e os usos próprios da nossa comunidade, que aliás, já fazem parte da história da cidade?

- Rememorando os temas apresentados pelas marchas populares, verificamos que o Bairro Alto se reporta aos espadachins da estalagem do Leandro e aos de Sebastião José de Carvalho e Melo (marquês de Pombal); Carnide respira ar campestre do século XIX e revive a sua “Feira da Ladra”; Alfama, envolve-se nos mares das Descobertas com a marinhagem do Gama; São Vicente contínua aristocrata, legitimista e escolar, etc. etc. Só a Madragoa, como disse Norberto de Araújo, “é uma colónia ovarina que se transplantou à Capital e se aclimatou no único bairro que tem Lisboa por raiz da sua dinastia”.

Baseada nesta realidade, a sua marcha conserva as origens que transpira a Ovar, à Ria, à Murtosa e ao São paio da Torreira.

Através dos tempos, reconhecemos que o minhoto faz parte de um povo de características próprias e inconfundíveis. Talvez por isso é diferente na maneira de se sentir feliz e de estar na vida.

Nas suas alegres reuniões e festas de convívio, não deixa de transmitir, aos filhos, as tradições das suas origens que enriquecem bastante a cultura popular de uma cidade cosmopolita, como é Lisboa.

- Como autoridade que é pelo que de muito conhece da história, dos usos e costumes das gentes de Lisboa, quais a seu ver os vestígios mais importantes da presença minhota na capital quer ao nível social quer ainda cultural?

- Apraz-me concluir que o povo minhoto, quer seja originário de Ponte de Lima ou de qualquer das cinquenta freguesias do concelho, é, por índole, trabalhador, honesto e inteligente.

Os homens e as mulheres que, no desabrochar da vida, emigraram para Lisboa, exerceram sempre as mais diversificadas profissões desde a indústria hoteleira ao sector do ensino, integrando-se naturalmente no ambiente social e cultural da cidade das ete colinas, criando e fortalecendo, ao longo dos anos, relações de amizade e de respeito.

img571



publicado por Carlos Gomes às 00:00
link do post | favorito

mais sobre mim
pesquisar
 
Agosto 2019
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
14
15
16
17

18
19
20
21
22
23
24

25
26
27
28
29
30
31


posts recentes

PAN CONTESTA ENCONTRO EM ...

PAN ENTREGA LISTA DE CAND...

ESTAÇÃO BAIXA-CHIADO CELE...

COMUNIDADE ROMENA DA REGI...

INVESTIGAÇÃO DA UNIVERSID...

ALFRAGIDE REALIZA FESTIVA...

PAN ANUNCIA CABEÇAS DE LI...

METRO DE LISBOA PROMOVE C...

PAN FAZ BALANÇO DA LEGISL...

FAMÍLIAS NAVEGAM NO METRO...

PORTO DE LISBOA APRESENTA...

PROLONGAMENTO ORIENTE / A...

PAN CONSEGUE MAIS DIREITO...

PAN INTEGRA DELEGAÇÕES DO...

CASA DO CONCELHO DE TOMAR...

PAN ACUSA PSD, CDS E PCP ...

PAN CONSEGUE QUE OS ESTUD...

SINTRA: TERRUGEM RECEBEU ...

ACABOU O PRAZO INTERNUPCI...

PAN GARANTE 1ª VICE-PRESI...

METROPOLITANO DE LISBOA A...

PAN QUESTIONA MINISTRO SO...

CASA DO CONCELHO DE ARCOS...

FOLKLOURES'19 CELEBRA A A...

METRO DE LISBOA ASSINALA ...

PAN QUESTIONA COBRANÇA DE...

TOMAR ESTÁ EM FESTA!

COMUNIDADE MOLDAVA CONFRA...

COMUNIDADE MOLDAVA CONFRA...

SARDINHADA JUNTA TOMARENS...

PAN PROPÕE PROJETO-PILOTO...

PARLAMENTO EUROPEU: PAN E...

FOLKLOURES'19: VEM AÍ A G...

PROF. DOUTORA TERESA SOEI...

FEIRA INTERNACIONAL DO AR...

PROF. DOUTORA TERESA SOEI...

FEIRA INTERNACIONAL DE AR...

METRO DE LISBOA CELEBRA 7...

PAN CELEBRA MÊS ARCO-ÍRIS

PAN QUER QUE GOVERNO APRO...

FIA RECEBE ARTESANATO DE ...

GENTES DE ARGANIL TRAZEM ...

BELAS REALIZA FESTIVAL DE...

FESTA DA AMIZADE JUNTA MI...

SINTRA: BELAS REALIZA FES...

CASA DO CONCELHO DE TOMAR...

OEIRAS: PEDREIRA ITALIANA...

CASA DO CONCELHO DE PENAC...

GENTES DE ARGANIL TRAZEM ...

FIA RECEBE ARTESANATO DE ...

arquivos

Agosto 2019

Julho 2019

Junho 2019

Maio 2019

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Agosto 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

tags

todas as tags

links
Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds