Blogue de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes de Lisboa e arredores
Segunda-feira, 28 de Julho de 2014
QUEM SÃO E O QUE FAZEM OS MINHOTOS RADICADOS EM LISBOA?

A questão a saber quem são e o que fazem os minhotos e seus descendentes que residem em Lisboa e arredores revela-se de vital importância, uma vez que estes constituem a base social de apoio do movimento regionalista. Desde os primeiros surtos migratórios ocorridos sobretudo a partir dos começos do século vinte, os minhotos que vieram trabalhar para Lisboa eram sobretudo jovens que, sonhando um futuro mais risonho, procuraram escapar à miséria da lavoura e das aldeias, sujeitando-se aos trabalhos mais árduos quase sem tempo para descanso. Provinham, na sua maioria, dos concelhos predominantemente rurais e das localidades mais isoladas onde a fixação era difícil devido à escassez de emprego e às distâncias a percorrer para as vilas e outras áreas urbanas mais próximas.

zzz

A construção do caminho-de-ferro foi fundamental para a deslocação dessas massas de população que enchiam os comboios e desembarcavam no Rossio, em Campolide, no apeadeiro do Rêgo e finalmente em Santa Apolónia. A viagem de “correio” entre Lisboa e Viana do Castelo constituía uma jornada que chegava a ultrapassar meia jornada, com transbordo em Campanhã e prolongadas demoras em quase todas as estações e apeadeiros para serviço postal e carga e descarga de bagagens e outras mercadorias. Atreladas às velhas máquinas locomotivas, as composições eram invariavelmente formadas por carruagens de passageiros a que se juntavam vagões de mercadorias. Apenas a partir dos anos quarenta do século XX se tornou realidade a eletrificação da linha do norte. Na linha do Minho, a circulação da automotora era feita em via única e controlada com o estalejar de foguetes estrategicamente colocados na via-férrea.

Chegados a Lisboa, os minhotos entregavam-se às mais diversas atividades, ocupando-se de início nas descargas de lenha e carvão que eram efetuadas nomeadamente nas estações ferroviárias de Alcântara, Poço do Bispo ou na fábrica do gás da Boavista, junto ao aterro de Santos. Aos poucos, foram tomando as tabernas e carvoarias dos galegos e a substituí-los nos fretes aos clientes. A esse tempo, amassavam “bolas” feitas de cisco de carvão que aproveitavam os resíduos e serviam para alimentar os fogareiros cuja utilização era, apesar de tudo, mais económica do que os fogareiros a petróleo. O gelo com que no verão se refrescavam as bebidas, iam buscá-lo ao frigorífico velho que funcionava na antiga doca de Santos e que atualmente serve de discoteca de diversão noturna. A doca foi aterrada em meados dos anos setenta do século passado para se transformar em parque de estacionamento automóvel.

Por vezes, a experiência não resultava e o retorno às origens constituía o recurso óbvio. Ou então partiam para o Brasil onde todos os minhotos sempre têm um familiar que para ali emigrou, não raras as vezes escondidos nos porões dos navios. Os que foram ficando e construíram uma nova vida, chamavam a família, os conterrâneos e os amigos, encaminhando-os invariavelmente para o mesmo ramo de atividade em que se ocupavam, na maioria dos casos à testa de um balcão de estabelecimento comercial.

Porém, as profissões que exerciam também tinham em grande medida a ver com a sua experiência e hábitos trazidos das suas terras. Assim, constatamos que, de Caminha e Viana do Castelo vieram para Lisboa sobretudo pedreiros, estucadores e carpinteiros, do Soajo e Ponte da Barca os padeiros, de Covas, Ponte de Lima e Paredes de Coura os taberneiros e carvoeiros que transformaram as velhas e típicas tabernas nos modernos restaurantes. De Amares e Terras de Bouro saíram empregados de pensões e hotéis. De Melgaço, Monção e outras vilas do litoral ingressaram muitos dos seus filhos na Marinha de Guerra enquanto de Paredes de Coura e outras localidades do interior optaram pelas forças de segurança. Em relação às mulheres, o trabalho de empregada doméstica, vulgo de “sopeiras”, não era bem encarado entre as gentes minhotas pelo que, a maioria apenas vinha para Lisboa após o casamento e com o marido já estabelecido no negócio.

Contudo, não foi apenas gente humilde e pobre, como por vezes se julga, que deixou a sua terra para se instalar na capital. Embora em menor número, houve também arquitetos, advogados, jornalistas, sacerdotes, militares de carreira e titulares de outras profissões com estatuto social mais elevado que se fixaram em Lisboa, ao lado daqueles que se submetiam a uma vida de escravidão para conseguirem sobreviver em condições melhores do que aquelas que a terra lhes permitia.

Com a progressiva fixação dos minhotos, vieram os filhos e os netos já nascidos na grande cidade, beneficiando das condições de vida alcançadas pelos seus progenitores. Ao contrário das gerações antigas, os mais jovens puderam ter acesso a níveis superiores de instrução e ao usufruto de bens culturais que antes eram inacessíveis. Possuem naturalmente diferentes hábitos e formas de estar na sociedade, outros motivos de interesse e sobretudo uma mentalidade substancialmente diferente adquirida em contacto com outras pessoas de diversas origens culturais, num ambiente que é característico das grandes metrópoles. Não obstante, sentem pela terra dos seus pais um carinho e uma nostalgia como se lá tivessem nascido e permanecido durante a maior parte das suas vidas. São minhotos, autênticos, não de origem mas de coração!

Bibliografia:

Carlos GOMES. Regionalismo em Portugal. Subsídios para a sua História. Casa do Concelho de Ponte de Lima. 1997. Lisboa

Foto: Descarga de carvão no Cais do Sodré, em 1907 (Arquivo Municipal de Lisboa)



publicado por Carlos Gomes às 10:44
link do post | favorito

mais sobre mim
pesquisar
 
Julho 2019
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
11
13

15
18
19
20

21
22
23
24
25
26
27

28
29
30
31


posts recentes

PROLONGAMENTO ORIENTE / A...

PAN CONSEGUE MAIS DIREITO...

PAN INTEGRA DELEGAÇÕES DO...

CASA DO CONCELHO DE TOMAR...

PAN ACUSA PSD, CDS E PCP ...

PAN CONSEGUE QUE OS ESTUD...

SINTRA: TERRUGEM RECEBEU ...

ACABOU O PRAZO INTERNUPCI...

PAN GARANTE 1ª VICE-PRESI...

METROPOLITANO DE LISBOA A...

PAN QUESTIONA MINISTRO SO...

CASA DO CONCELHO DE ARCOS...

FOLKLOURES'19 CELEBRA A A...

METRO DE LISBOA ASSINALA ...

PAN QUESTIONA COBRANÇA DE...

TOMAR ESTÁ EM FESTA!

COMUNIDADE MOLDAVA CONFRA...

COMUNIDADE MOLDAVA CONFRA...

SARDINHADA JUNTA TOMARENS...

PAN PROPÕE PROJETO-PILOTO...

PARLAMENTO EUROPEU: PAN E...

FOLKLOURES'19: VEM AÍ A G...

PROF. DOUTORA TERESA SOEI...

FEIRA INTERNACIONAL DO AR...

PROF. DOUTORA TERESA SOEI...

FEIRA INTERNACIONAL DE AR...

METRO DE LISBOA CELEBRA 7...

PAN CELEBRA MÊS ARCO-ÍRIS

PAN QUER QUE GOVERNO APRO...

FIA RECEBE ARTESANATO DE ...

GENTES DE ARGANIL TRAZEM ...

BELAS REALIZA FESTIVAL DE...

FESTA DA AMIZADE JUNTA MI...

SINTRA: BELAS REALIZA FES...

CASA DO CONCELHO DE TOMAR...

OEIRAS: PEDREIRA ITALIANA...

CASA DO CONCELHO DE PENAC...

GENTES DE ARGANIL TRAZEM ...

FIA RECEBE ARTESANATO DE ...

COMUNIDADE MOLDOVA CONFRA...

RIO DE MOURO: NEM TUDO É ...

ARTESÃOS DE TODO O MUNDO ...

ARTESÃOS DE TODO O MUNDO ...

FESTA DOS TABULEIROS EM T...

PAN INCENTIVA A UMA MAIOR...

UNIVERSIDADE DE AVEIRO AS...

LOURES PREPARA-SE PARA A ...

RIO DE MOURO: ESTE É O CA...

METRO DE LISBOA PROLONGA ...

PAN DESAFIA LISBOA E PORT...

arquivos

Julho 2019

Junho 2019

Maio 2019

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Agosto 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

tags

todas as tags

links
Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds