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Quarta-feira, 27 de Janeiro de 2016
REINTEGREMOS O GALEGO NO PORTUGUÊS

O escritor galego Ricardo Carvalho Calero deixou-no claro há bastantes anos: «O galego, ou é galego-português ou é galego-castelhano».

Joan_Lluis_LLuis2

Para fazerem desaparecer as línguas que estorvam, os estados com vocaçom lingüicida tenhem diversas soluções ao seu alcance, que funcionam mais ou menos bem. Espanha foi avondo eficaz, ao menos na Galiza. Lá, agiu em dous tempos. Primeiro, convenceu os galego-falantes de que a sua língua já nom tinha nada a ver com o português. Umha vez isolado, o galego deixou de interagir com umha língua falada por uns douscentos e quarenta milhões de pessoas e oficial em nove estados independentes. Quer dizer, que a primeira etapa condenou a língua a viver em autarquia num território –Galiza— de dous milhões e meio de habitantes. Se os dous milhões e meio de galegos falassem todos galego, já ora, nom haveria qualquer problema. Nom é, porém, o caso, e o seu declive é constante desde a segunda metade do século XX.

A segunda etapa consiste em aproveitar a insegurança lingüística dos falantes de umha língua que, separada da norma comum, há de fazer umha de seu, para legitimar o maior número possível de castelhanismos. O símbolo desta intrusom é a aceitaçom académica do dígrafo ñ no lugar do genuíno nh —o nh, é claro, remetia demasiado para as normas portuguesas—. Imaginais os estragos que teria causado ao catalão a aceitaçom do mesmo dígrafo? Imaginais que fosse normativo que um catalão exilado escrevesse: «Cada dia, des de la lluñania, eñoro la meva Cataluña» [1]?. Por sinal, esta estratégia em dous tempos —separaçom do tronco comum e castelhanizaçom— é também a estratégia seguida polo espanholismo no País Valenciano.

O escritor galego Ricardo Carvalho Calero deixou-no claro há bastantes anos: «O galego, ou é galego-português ou é galego-castelhano». A academia oficial e o governo autónomo decidírom-se com furor pola segunda opçom. Porém, desde há uns anos, começa a fazer-se sentir umha outra voz. A dos chamados reintegracionistas. Som eles que entendem plenamente os argumentos e os objetivos dos partidários do galego-castelhano e que querem exatamente o contrário.

Som eles que, reagrupados na Associaçom Galega da Língua, querem salvar o galego da implacável residualizaçom a que está condenado. Os seus argumentos som de senso comum: isolado, o galego morrerá, unido com o português, pode aguardar prosperar, graças ao grande número de falantes de que dispom e ao seu prestígio internacional. Intentam, pois, operar umha revoluçom mental para fazer que se reconheça aquilo que já era umha evidência: o galego nom é umha língua derivada do português, mas umha das formas do português.

Este movimento de retorno requer a aceitaçom de um vocabulário hoje desterrado, o qual haveria de fusionar com as formas próprias do galego. Requer, sobretudo, eliminar as formas espanholas aceites de olhos fechados por umha academia [a RAG] de bandulho mole. E requer a recuperaçom das normas ortográficas comuns ao português como som nh em vez de ñ, mas também lh por llou ç no lugar de z. Nom o têm doado. Explica-o um dos escritores mais ativos neste combate, Séchu Sende: «Os reintegracionistas som umha minoria no interior da minoria galego-falante». O seu supervendas galego, Made in Galiza (em catalão, A vendedora de palavras, edições RBA, traduzido por Mònica Boixader) estava escrito num galego intermédio entre normativo [oficialista] e reintegracionista. Decidiu redigir o seguinte livro (A República das Palavras) empregando apenas as normas reintegracionistas, e isso significou apenas lograr ser publicado por uma pequena editora. Para ele, porém, a reintegraçom ao tronco galego-português é a única possibilidade para esperar reinjetar autoestima nos falantes de umha língua percebida geralmente como estritamente decorativa. Torna al Born o mor[2].

NOTAS:

[*] Artigo publicado originalmente por Joan-Lluís Lluís na revista catalã Presència em novembro de 2015. Traduzido do catalão para a galega com permissom do autor.

[1] Em correto catalão, «cada dia, des de la llunyania, enyoro la meva Catalunya»; isto é, «Cada dia, a partir da lonjura, sinto a falta da minha Catalunha».
[2] «Regressa ao Born ou morre». O provérbio original é «Roda el món i torna al Born» (localidade catalã), que se poderia traduzir como «vê mundo e regressa à casa».

Joan-Lluís Lluís (Perpinhã, Países Catalães, 1963), é um premiado escritor e colunista catalão. É colaborador habitual de publicações digitais como VilaWeb ou Esguard e a ainda a revista Presència (suplemento semanal do diário El Punt Avui). Nascido na Catalunha Norte, desenvolveu do início a sua trajetória literária no Principat, ao mesmo tempo que denuncia o «lingüicídio» cometido polo Estado francês na sua terra de origem.

Joan-Lluís Lluís / http://www.diarioliberdade.org/



publicado por Carlos Gomes às 00:16
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