Blogue de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes de Lisboa e arredores
Quinta-feira, 8 de Maio de 2014
VAREIRAS E VARINAS: DO MOCAMBO Á MADRAGOA

O pitoresco bairro da Madragoa, habitado predominantemente por gentes oriundas de Ovar e da sua praia do Furadouro, às quais se juntaram os da Murtosa, Estarreja e Ílhavo foi primitivamente um pequeno aglomerado de casebres onde viviam antigos escravos negros trazidos nas naus e que sobreviviam da pesca, tirando partido da proximidade do rio, onde outrora se formava a praia que, após o aterro, deu origem à atual avenida 24 de Julho e ao Jardim de Santos. Designava-se então o bairro por Mocambo e ficava próximo dos terrenos que o casal flamengo, Cornélio Vandali e Martha de Bös haveriam de doar às religiosas da Ordem da Santíssima Trindade do Resgate dos Cativos para ali edificarem uma capela de invocação a Nossa Senhora da Soledade e, posteriormente, um edifício que as acolhesse – o Convento das Trinas do Mocambo.

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Da foz do rio Douro às lagunas do Vouga e dunas de São Jacinto, na Costa Nova e no Furadouro, na Murtosa, as gentes vareiras distinguem-se pela sua peculiar forma de ser e de trajar, o seu falar característico e o seu modo de vida geralmente associado às lides do mar. Desde há séculos que estas gentes laboriosas partiram para outras paragens em busca do sustento que nem sempre logravam alcançar na sua terra ou, melhor dizendo, no mar que o banha. E, vai daí, os ilhavenses aventuraram-se por esse mundo fora, enfiados nos velhos bacalhoeiros que demandavam à Terra Nova ou em qualquer actividade de embarcadiço. Ainda hoje é difícil não encontrar um natural de Ílhavo num qualquer navio a navegar em mar alto sob qualquer pavilhão, fazendo juz à fama que conquistaram os portugueses de quinhentos.

De Ovar e da Murtosa formaram as suas gentes novas colónias de pescadores que se estenderam ao longo da costa até às praias do Algarve, fixando-se muitas delas nos mais antigos bairros lisboetas, constituindo talvez a Madragoa o núcleo populacional mais homogéneo constituído por gente vareira. Quem não se lembra ainda das graciosas varinas que, de canastra à cabeça, saracoteando as ancas e apregoando com o seu jeito característico, percorriam a cidade da ribeira às colinas, vendendo o peixe que arrematavam na lota ou iam buscar ao cais à chegada das velhas faluas.

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Com efeito, a expressão varino ou varina tornou-se usual sobretudo em Lisboa para designar as gentes oriundas daquela região à beira-mar, entre Aveiro e o Porto, provavelmente pela sua maioria ser oriunda da área do concelho de Ovar e, por esse facto, talvez aquela designação constitua uma corruptela dos gentílicos ovarino e ovarina. Em todo o caso, quaisquer das expressões está associada às características geomorfológicas daquela zona do rio Vouga e das formas que os seus naturais tiveram para se adaptar ao meio. Antes de mais, convém lembrar que o topónimo Ovar possuí a sua origem na raiz Var em acoplação com o artigo definido resultou na sua designação actual: Ovar, de O Var.

Var e vau são designações que significam laguna ou estuário, tornando-se por conseguinte lugares de varadouro ou seja, sítio propício para as embarcações poderem varar. Precisamente ao invés de fundeadouro que se refere a um local fundo onde apenas é permitido fundear. Ora, para as pessoas menos familiarizadas com as lides do mar, também se designam por varadouros as pequenas rampas de acesso a terra que existem junto de muitas lotas e portos de pesca no nosso país, onde frequentemente são deixadas as embarcações em terra firme.

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Por seu turno, vareiro é também designado o barco caraterístico deste região, pequeno e estreito, de fundo chato como convém e que geralmente é conduzido à vara. Aliás, tal como sucede com os barcos saleiros e moliceiros que na realidade são sucedâneos dos velhos barcos vareiros. Ora, este género de embarcações muito usual nesta zona do rio Vouga contrasta profundamente com os barcos saveiros que se aventuram na costa e enfrentam a forte ondulação. Precisamente, o seu fundo chato permite a varação e também navegar... à vara !

Mas, a designação vareiro e varino acaba associado a muitos outros aspectos da vida destas gentes. Assim, por vareiros são também designadas as varas que os homens levavam às costas com um cesto em cada ponta, geralmente para neles transportarem o peixe. Neste caso, o vareiro consiste numa vara comprida e delgada. E, por vareiros eram também designadas as varas com que outrora formavam as latadas antes de serem substituídas pelo esticadores de arame. Por vareiro ou varino era também designado o gabão que as gentes desta região vestiam, uma espécie de capa que as agasalhava do frio cortante e da brisa marítima nas longas manhãs à espera que os barcos regressassem da faina. Finalmente, a vareira é juntamente com o vira uma das danças tradicionais mais características das gentes varinas.

Com o seu chapéu de copa alta e aba curta forrada a veludo como usam os de Ílhavo e de Ovar ou de copa baixa e aba larga como agrada aos da Murtosa, as gentes vareiras constituem um tipo étnico que se distingue facilmente de outras regiões. Com o decorrer do tempo, os usos foram alterando-se e as varinas da Madragoa já não trajam como antigamente. Mas o bairro não perdeu as suas caraterísticas e Lisboa não esquece as suas origens!

Carlos Gomes (Adapt.) / http://www.folclore-online.com/

Fotos: Arquivo Municipal de Lisboa

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publicado por Carlos Gomes às 00:00
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